29 de mar de 2010

Curso extensivo de dança tribal 2010


Primeiro dia de aula

Olá!
Manifestamos a idéia de descrever aqui as nossas impressões a respeito da nossa aula e do grupo de participantes que uniu-se sob o propósito dos conhecimentos oferecidos no curso extensivo de dança tribal 2010.

O grupo é formado por: Vishva, Áurea, Patrícia, Andressa, Carol, Samantha, Waleska, Letícia, Karine, Juliana e Fabi. Muitas se conheceram na aula e tivemos a oportunidade de trabalhar com arquétipos bem diferentes entre si e que somaram muito no resultado final do trabalho. Consideramos atingido o objetivo desta primeira aula, que era o de interação, abrir caminho para o processo criativo e analisar a expressão corporal individual.
A justificativa para esta análise é favorecer a absorção dos estilos que serão trabalhados, assim como dirigir artisticamente os grupos para o estilo coreogáfico mais apropriado, adequando-o conforme sua movimentação mais natural.

Apesar de uma pequena catástrofe (uma correnteza invadiu um dos espaços com a chuva), acreditamos que e as atividades propostas e a didática aplicada foram bem recebidas.

Ficamos inteiramente surpresas ao constatar o potencial que este grupo demonstrou durante os processos criativos, assim como o fácil entrosamento que tiveram. Captamos coisas muito bonitas criadas já neste primeiro encontro e com certeza serão bem aproveitadas. Estamos muito felizes e motivadas com este trabalho! Parabéns a todas!!!





Curso com o Grupo Masala


Apresentação do curso

Este curso foi desenvolvido a partir da experiência das bailarinas e professoras de dança do ventre e dança tribal Fernanda Araújo (Zahira Razi), Bruna Gomes e Daiane Ribeiro, artistas que buscam através de sua sensibilidade e estudo aprofundado, trazer o máximo possível de expressividade e qualidade para este campo artístico. Aliado a isso, um comprometimento didático que resulta em maior absorção de conteúdos teóricos e elementos cênicos/coreográficos por parte das integrantes das aulas, assim como um esclarecimento efetivo acerca da atuação da dança em diversos aspectos de suas vidas.

Ele também contribui para a evolução física e intelectual  indispensáveis ao desenvolvimento da bailarina profissional  na atualidade. Focaliza-se no melhor desempenho em amplos aspectos dentro do trabalho artístico com a dança tribal.
O seu formato oferece a possibilidade de um contato bem mais abrangente com o universo da dança, com uma carga horária de seis horas. Permite também que o mesmo seja aproveitado integralmente, possibilitando a  participação de bailarinas de outras localidades com maior 
aproveitamento de seu tempo.

A cada módulo serão solicitados trabalhos de pesquisa práticos e teóricos. Abordaremos temas importantes como história, personalidades, ritmos, percepção musical e  consciência corporal. Durante o curso serão oferecidas atividades extra curriculares em grupo, assim como ensaios, incluídos na dinâmica do curso, mas em datas específicass que serão agendadas durante o curso.
A conclusão do curso será determinada  oficialmente através de certificado e atuação em show dirigido pelo grupo Masala, que objetiva com isto realizar e divulgar um trabalho de resultados excelentes tanto na conhecimento teórico quanto artístico prático de todas as integrantes do curso.
O conteúdo teórico contido no polígrafo será captado a cada aula. Este conteúdo foi meticulosamente escolhido com base na importância real de cada assunto, de forma que o mesmo possa de fato, se manifestar na prática de cada pessoa. Acrescentamos conteúdos que favorecem epistemologicamente o conceito próprio sobre a dança, que são alternativas de realizar um trabalho diferenciado que complementa toda questão técnica.

Para finalizar, o grupo Masala gostaria de lhe dar as boas vindas, deixando claro que estaremos sempre acessíveis a qualquer dúvida ou necessidade. Agradecemos profundamente sua confiança em nosso trabalho e esperamos fortalecer cada vez mais nossas integridades como artistas da dança, através do respeito, da união e do conhecimento.  Nossa arte merece e necessita de nosso amor e dedicação, para continuar viva e fascinante.
Um grande abraço!!!


Detalhes sobre o curso em 2011:

Inscrições prorrogadas para 30 de março
disponibizamos 15 vagas 
Locais de realização: Estúdio Al-Málgama e Centro Meme, Porto Alegre
O custo total do curso este ano será de R$ 2.166,00
Pode ser parcelado, verifique condições

Mais informações por email:
masalagroup@hotmail.com
fones: 51 33070359
51 84983868
51 98670837


Sobre Ivaldo Bertazzo


Um dia vou ser caboclo"

Assim fala Ivaldo Bertazzo, o professor
de dança dos famosos


Durante a maior parte do ano, o professor de dança Ivaldo Bertazzo zela pelo físico da elite. Em sua academia, instalada num bairro de classe alta em São Paulo, ele ensina expressão corporal e boa postura a artistas, empresários e profissionais liberais conceituados. Já passaram por suas mãos as atrizes Maitê Proença e Denise Fraga, a petista Marta Suplicy, a primeira-dama Ruth Cardoso, o ex-ministro Celso Lafer e o apresentador Zeca Camargo. Uma vez por ano, entretanto, o professor sai de cena para dar lugar ao coreógrafo Ivaldo Bertazzo, que há três décadas vem acumulando prêmios e elogios. Esse é bem diferente. Em seus espetáculos, ele enaltece a cultura popular. Faz parte de um segmento de artistas – como o cineasta Andrucha Waddington, diretor de Eu Tu Eles, ou a cenógrafa Bia Lessa, que já utilizou a mão-de-obra de detentos do Carandiru – que descobriu que utilizar o tema da miséria brasileira dá um ibope danado. Bertazzo se vale de uma expressão, "cidadãos-dançantes", para descrever as pessoas de classe baixa que costuma escalar para suas montagens. Começou utilizando bailarinos amadores nos anos 70 e, de 1996 para cá, vem investindo cada vez mais em tipos regionais. Com coreografias protagonizadas por índios da Amazônia, sertanejos nordestinos ou favelados cariocas, faz sucesso de crítica e sensibiliza os patrocinadores como ninguém. Seu novo espetáculo, Mãe Gentil,tem orçamento de 1,7 milhão de reais para um total de vinte apresentações. É dinheiro suficiente para bancar os gastos com salários e produção de espetáculos do conceituado grupo Corpo, de Minas Gerais, por oito meses.

Ao contrário da maioria dos coreógrafos do primeiro time – de Rodrigo Pederneiras, do grupo Corpo, à carioca Deborah Colker –, Bertazzo consegue destaque mesmo sem estar à frente de uma companhia organizada. Qual a chave para se manter sob os holofotes? Trata-se de um profissional talentoso, sem dúvida. Mas seu segredo reside no jeito peculiar como aliou a atividade de coreógrafo à de professor: um lado alimenta o outro. Bertazzo é o representante no Brasil de um método de terapia corporal desenvolvido nos anos 70 por uma pesquisadora belga. Somando a essa base européia elementos de danças étnicas e outras influências, criou um método didático reverenciado. Com seu jeitão teatral e irreverente, conquistou uma legião de fãs e fez amigos valiosos. "O Ivaldo sempre aproveitou o carisma para comercializar bem seu trabalho", diz a crítica de dança Suzana Braga. "Como ele dá aula para a nata da sociedade, os contatos ajudam na hora de brigar por patrocínio", opina o ator Raul Barretto, seu ex-colaborador.

No final dos anos 60, Bertazzo, paulistano do bairro da Mooca, era um adolescente de origem humilde, considerado muito rechonchudo para ser bailarino. Ao chegar a uma escola de balé, a professora ironizou: "Vamos ter de trabalhar muito para chegar lá, não é mesmo?" Ele conseguiu. "Dancei profissionalmente por seis anos, mas logo depois passei a atuar como professor", explica. Isso foi lá pelos idos de 1972. Seus pais, um imigrante italiano e uma descendente de sírio-libaneses, não gostaram nadinha de ver o filho sobrevivendo da dança. Mas ele não se arrepende. Hoje, aos 51 anos, seu padrão de vida é para lá de razoável. De tempos em tempos, pode dar-se ao luxo de passar longos períodos viajando pelo Oriente, da Índia à Tailândia. As tendências que traz de fora acabam causando frisson na academia. Suas aulas são um capítulo à parte. Nelas, as pessoas são conclamadas a batucar nos próprios ossos com colheres de pau e a esfregar suas veias com uma escova, na direção em que o sangue jorra. "A gente fica toda roxa, mas é libertador", vibra a atriz Vera Holtz. Bertazzo também recomenda que os alunos evitem o narcisismo de se mirar no espelho e pede que se mantenham longe da balança. "De que adianta subir nela e descobrir que você engordou 3 quilos? Isso não muda nada", defende. Bertazzo, hoje em dia, acalenta dois sonhos. O primeiro é montar uma companhia de teatro musical que dê plena vazão a suas experiências com a cultura regionalista. O segundo, ainda em sintonia com seu interesse por este "caldeirão cultural que é o Brasil", parece mais complicado. "Um dia vou ser caboclo", diz ele, enquanto acaricia seu anel indiano de ouro e água-marinha. "O caboclo é um refinamento de nossa cultura que ainda não assumimos."

Veja, Ed.1 670 11/10/2000 - Marcelo Marthe

Bioenergética



<Bioenergética: o que é?

Bioenergética são exercícios corporais vinculados com a respiração. Lowen os criou partindo do princípio de que a criança, quando é obrigada a suprimir a expressão de sentimentos (o que equivale a suprimir o sentimento em si), desenvolve bloqueios corporais correspondentes à emoção que foi suprimida, diminuindo, assim, a mobilidade e a vitalidade do corpo.

As emoções não expressas ao longo de nossa vida ficam contidas em nosso corpo, formando contraturas, as couraças musculares.

Por exemplo, uma criança, quando fica brava, aprende que não deve expressar sua raiva, pois será punida. Para conter essa raiva, ela precisa criar uma tensão no seu corpo e ao mesmo tempo mudar sua respiração.

Provavelmente, irá apertar os maxilares e paralisar a respiração no diafragma, e, às vezes, contrairá também o pescoço. Essas tensões, ao serem repetidas, vão-se tornando crônicas.

Outro exemplo: uma criança está triste e sente vontade de chorar, mas seu choro geralmente incomoda os pais, e, então, ela aprende a contê-lo, fechando o peito, projetando os ombros para a frente e diminuindo a respiração. Mais tarde, quando adulta, embora já não haja motivos para conter suas emoções, essa pessoa terá dificuldades para chorar e também para expressar outros sentimentos como amor, alegria e paixão.

A bioenergética pode ajudar a desbloquear essa expressão, por meio de exercícios para o peito e outros. O trabalho de bioenergética visa, por meio de exercícios e posturas corporais, bem como de técnicas de respiração, desmanchar esses bloqueios.

Existem exercícios para todos os segmentos do corpo: olhos, boca, pescoço, peito, diafragma, pélvis, pernas e pés. Os exercícios permitem a liberação da energia reprimida através de choro, riso, catarse e vibração espontânea do corpo. Estas vivências aliviam as tensões, possibilitando a oportunidade de enxergarmos os nossos comportamentos automáticos e modificá-los. Desta forma conseguimos ser mais reais, mais espontâneos, mais conscientes.

Talvez você se pergunte: "Para que preciso de tudo isso?" Você é o reflexo de como foi criado na sua infância. Se você construir um prédio com a fundação torta, não adiantará caprichar nos acabamentos sem corrigir as fundações. Assim é o ser humano. Se temos dificuldades com situações, elas são reflexo de nossa criação. Então, se não liberarmos os sentimentos presos em situações da infância, dificilmente conseguiremos modificar os comportamentos prejudiciais à nossa vida.
A bioenergética nos abre essa chance: a de
transformar nossa vida.

Os adeptos da terapia Bioenergética consideram que existe uma forma de energia particular que cria uma interação entre o corpo e o espírito, governando os estados físico e mental. Ainda não foi possível medir essa força, mas, ela é também conhecida como “QI”, “PRANA”, “Força Vital”, “Vitalismo”, etc.

O conceito da existência de uma energia única que une o corpo e o espírito constitui um dos fundamentos de terapias orientais como a Yoga, o Tai-chi-chuan e a acupuntura.

Os praticantes da Bioenergética crêem que os problemas psicológicos, o stress, as atitudes negativas e as emoções como a ira e o medo, têm uma influência sobre a maneira de se sentar, de se manter em pé, de se mover ou de respirar.

O objetivo da Bio é, antes de tudo, ajudar as pessoas a tomar consciência de suas posturas, de suas atitudes de “blindagem” e das emoções associadas a essas posturas e atitudes.

Pela a prática de certos exercícios, as pessoas aprendem a liberar a couraça muscular, de modo a permitir que o corpo funcione livremente e naturalmente.

Além disso, a Bioenergética dá muito mais importância ao crescimento pessoal que à cura das doenças. Servindo, assim, para o aprofundamento do conhecimento que as pessoas têm delas mesmas. Existem aqueles que praticam a Bioenergética para se manter em forma e outros que a utilizam com o objetivo de elevar a auto-estima, desenvolvendo uma atitude positiva em relação ao próprio corpo.

Um pouco da vida e obra de Alexander Lowen

Alexander Lowen é ele próprio, o melhor cartão de visitas de sua criação: a Análise Bioenergética. Em 1989 quando esteve no Brasil, Lowen nos surpreendeu com sua alegria de viver e vitalidade. Acompanhei-o por exemplo, a um passeio ao Corcovado e fui testemunha de sua maneira leve e ágil de deslizar por aqueles inúmeros degraus e ainda os esperar no topo, a nós 40 anos mais jovens! Tal condição é conseguida graças a integridade e coerência com seu próprio trabalho, junto com a disciplina de fazer diariamente os exercícios que recomenda.

Completando 85 anos Lowen está deixando a presidência do International Institute for Bioenergetic Analysis (IIBA), que fundou em 1953 quando começou a desenvolver especificamente a sua proposta terapêutica. Hoje o instituto tem 46 sociedades filiadas pela Europa, América do Norte, América do Sul e Nova Zelândia. No Brasil encontramos filiações, todas desenvolvendo cursos de formação para profissionais, em São Paulo, Salvador, Blumenau e Rio de Janeiro.

Advogado, casado e pai de dois filhos, Lowen conheceu Wilhelm Reich logo que este chegou aos EUA em 1940. Interessou-se por suas idéias, principalmente as que relacionavam o corpo e a mente e a sua abordagem econômica do problema da histeria. Tornou-se cliente de Reich. Quando resolveu se aprofundar e trabalhar com a Análise do Caráter Lowen foi para a Europa e se formou em medicina.

Começando a clinicar Lowen sentiu necessidade de ampliar o alvo terapêutico reichiano da potência orgástica. Desde seu próprio tratamento com Reich ele conseguiu alcançar o reflexo orgástico no consultório mas, não o reproduzia satisfatoriamente na vida fora do consultório. Na busca desta ampliação Lowen criou a própria originalidade de seu trabalho. A meta terapêutica da Análise Bioenergética inclui outras marcas de saúde além da potência orgástica: a vitalidade do organismo e sua qualidade de vida.

Corporalmente Lowen enfoca a liberação dos bloqueios energéticos, trabalhando com a respiração e com movimentos que permitam a livre expressão emocional, para então integrá-la à vida e à história pessoal através do fundamental trabalho analítico que acompanha todo o processo terapêutico. Lowen afirma categoricamente essa necessidade de se trabalhar tanto a nível corporal quanto à nível verbal; precisamos das duas pernas para caminharmos.

O trabalho loweniano é apoiado em três pontos: o primeiro é a autoconsciência, sentir-se com suas sensações e sentimentos; o segundo é a expressão desses sentimentos: a autoexpressão e finalmente a integração de ambos através da auto possessão.

Na trajetória da Análise Bioenergética dois conceitos se constituíram como fundamentais: o grounding e o surrender. O primeiro quer dizer enraizamento, é a autosustentação que aponta para a necessidade de uma verdadeira troca energética entre o corpo humano e a terra que o sustenta. O segundo conceito, surrender, significa uma profunda entrega a si mesmo, um profundo relaxamento dos processos defensivos arraigados no organismo e que mantendo a situação traumática impedem a vital pulsação do organismo. O caminho da doença à saúde passa de uma arcaica re-ação à real ação, da rendição à redenção.

Um terceiro conceito, mais recente é o da graciosidade, e está relacionado para Lowen com a espiritualidade. Nos animais livres encontramos uma graça em seus movimentos, uma suavidade flexível que nos encanta como se um pêndulo de energia viva pulsasse dos olhos aos pés. Essa pulsação graciosa circulando provoca sensações, sentimentos e emoções, promovendo o profundo contato com o próprio organismo e com o meio que o cerca.

Lowen também é um exímio escritor, tendo uma vasta bibliografia, a maioria já traduzida para o português, além de várias cartas e textos. Alguns de seus artigos e conferências internacionais foram publicados pelo The Jornal, órgão oficial do IIBA. Podemos esquematizar a obra loweniana em três grupos:

Primeiramente os livros que possibilitam uma visão mais ampla e didática da Análise Bioenergética: O Corpo em Terapia (1958) Summus Ed., Bioenergética (1975) Summus Ed. e Exercícios de Bioenergética (1977) Ágora Ed.. Neste último, escrito com sua mulher Leslie, Lowen demostra especificamente seu trabalho corporal, na forma de exercícios, descrevendo-os com figuras e esquemas, incentivando a prática pessoal.

No segundo grupo Lowen apresenta sua concepção nosografica e terapêutica. Ele aprofunda as dinâmicas psicológicas e corporais de algumas estruturas caracterológicas desenvolvendo as correspondentes técnicas terapêuticas. São eles: Amor e Orgasmo (1965) Summus Ed. abordando o caráter rígido; O Corpo Traído (1967) Summus Ed. sobre o caráter esquizóide; Prazer (1970) Summus Ed. a questão do caráter masoquista; O Corpo em Depressão (1975) Summus Ed. estudando o caráter oral; Medo da Vida (1980) Summus Ed. enfocando o caráter histérico e Narcisismo (1983) Cultrix desenvolvendo a temática do título.

O último grupo de suas obras aprofunda com sutileza e sabedoria alguns temas universais. A relação entre o amor e a sexualidade apesar de abordados por Lowen em vários momentos, foi enfocado especificamente em Amor, Sexo e seu Coração (1988) Summus Ed., nele o tema do bloqueio energético do coração e sua dissociação da sexualidade é relacionada aos problemas cardíacos. Na obra a Espiritualidade do Corpo (1990) Cultrix, Lowen através do enfoque da graciosidade, relacionado ao estado da graça, percorre seus conceitos anteriores. Em Joy the Surrender to the Body and to Life (1995) Peguim /Arkana sua última obra recém lançada nos EUA, Lowen retoma a alegria do brincar, onde a graça de fazer graça é resgatada no processo terapêutico.

Novembro de 1996

Renata Philadelpho Azevedo, Psicóloga. Psicoterapeuta Corporal.

Professora, Coordenadora e Diretora de Formação da SABERJ - Sociedade de Análise Bioenergética do Rio de Janeiro

Tipos de exercícios:

1. Respiração:

A respiração é essencial, pois "levamos a vida do tamanho de nossa Respiração".

Corresponde ao primeiro ato vital do ser humano, o qual vai estar presente durante toda a vida. Ao ser cortado o cordão umbilical, o ser humano entra em contato com o mundo através da respiração. É a forma de sentir os outros e o ambiente. Sempre que quisermos sentir menos, respiramos menos, aumentando as tensões e as couraças musculares.

Aliando a respiração ao movimento, é possível reduzir ou eliminar as tensões musculares, melhorando o contato sensorial e emocional com o mundo externo.

1- EXERCÍCIO BÁSICO DE VIBRAÇÃO (GROUNDING)


É um dos exercícios fundamentais na bioenergética. É uma forma de fazer com que o indivíduo entre em contato com as realidades básicas de sua existência, com seu corpo.

Fique em pé com os pés separados cerca de 25 cm. Incline-se à frente tocando o chão com os dedos das duas mãos, como na figura. Os joelhos devem estar ligeiramente dobrados. Não deve haver peso algum nas mãos; todo o peso do corpo deve cair nos pés. Deixe a cabeça pendurada o máximo possível. Respire vagarosamente e profundamente pela boca. Deixe seu corpo ir para frente, de modo que ele caia no peito do pé. Os calcanhares podem ficar um pouco erguidos. Estique o joelho devagar até que os músculos posteriores das pernas estejam esticados. Isso não significa, entretanto que os joelhos devam ficar totalmente esticados. Permaneça nesta posição cerca de um minuto.

EXERCÍCIO DO ARCO

Fique de pé com os pés separados 40 cm. Agora coloque ambos os punhos fechados com os polegares voltados para cima, na linha da cintura. Dobre os joelhos tanto quanto puder sem levantar os calcanhares do chão.
Arqueie-se para trás, dobre seus punhos, mas preste atenção para que o peso do corpo continue sobre o peito dos pés. Faça respiração abdominal profunda. Volte ao exercício anterior - básico de vibração. É muito mais fácil conseguir a vibração das pernas partindo da posição do arco.
É um exercício que ajuda a liberar a tensão abdominal e facilita o grounding.


MOBILIZAR-SE (Alongar e Espichar)
Tome a posição inicial e levante os braços na vertical, por cima da cabeça. Entrelace os dedos de ambas as mãos, com as palmas viradas para o teto. Comece empurrando uma das mãos para cima até você sentir uma rígida distensão na região abdominal. Segure durante algum tempo, e depois relaxe. Faça também com a outra mão. Enquanto faz o exercício, respire profundamente e ao expirar faça um som "a" prolongado.

MOBILIZAR-SE (Sacudir e dar Socos)
Sacuda todo seu corpo com movimentos vigorosos, sem se preocupar se são coordenados. Comece com as mãos, braços e ombros e deixe que as sacudidas tomem conta do tórax. Depois inclua a pélvis e as nádegas nos movimentos, como se alguém o estivesse segurando pelos quadris e você quisesse desvencilhar-se. Enquanto isso desfira socos e movimente seu rosto vigorosamente. Acompanhe as sacudidas e os socos com sons.

EXPRESSAR AGRESSIVIDADE

Levantar os braços bem para trás e depois bater com toda força por entre as pernas.

TIRAR A MÁSCARA

Relaxe o rosto. Coloque as pontas dos dedos de uma mão na testa, logo acima das sobrancelhas. A outra mão deve ser colocada com a superfície interna atravessada sobre o dorso do nariz e os ossos molares. Puxe ao mesmo tempo, ambas as mãos, separando-as e fazendo uma pressão sensível sobre a pele do rosto.

CÉU E TERRA

Este exercício ajuda a relaxar tensões acumuladas no abdômen, distúrbios menstruais, da próstata ou função digestiva reduzida. Deitado, puxe os joelhos para junto do peito e estique as pernas separadas, na distância da largura dos quadris, na vertical, para o alto, e vire as plantas dos pés para o teto. Os joelhos permanecem flexionados. Agora pressione os calcanhares para cima, fazendo com que os dedos dos pés apontem em direção ao rosto.

Couraças Musculares - 7 Segmentos Corporais

1. OCULAR: complexo, compreende cérebro, audição e visão.

Os olhos como espelho da alma, traduzem o que ocorre no nosso interior e servem para estabelecer o primeiro contato que se inicia com a mãe durante a amamentação. Têm a função de contato, impressividade e expressividade.

O encouraçamento deste segmento pode se expressar como desatenção, cefaléias, fotofobia, falta de contato, disfunções do movimento ocular. Principal emoção contida: MEDO.

2. ORAL: A boca é o sistema equilibrador de todo nosso sistema energético, possibilitando o segundo ato vital do ser humano que é a sucção. Na fase oral, o contato com o seio materno serve como matriz emocional que vai se refletir em toda a vida do indivíduo. No adulto, a boca tem função nutritiva, expressiva e de vocalização.

Couraças neste segmento podem se expressar pela contração e tensão excessiva dos músculos mastigatórios como bruxismo noturno (ranger os dentes dormindo) e distúrbios da ATM (articulação têmporo-mandibular). Principal emoção contida: RAIVA

3. CERVICAL: O segmento cervical serve de ponte e ligação entre a cabeça - pensamento e consciente e o corpo -desejos e vontades - inconsciente. Inclui músculos da fala, deglutição, sustentação e movimentos da cabeça, glândula tireóide. A postura da cabeça e pescoço expressam a forma em que a pessoa se coloca no mundo: orgulho, submissão, ameaça, etc. A vocalização indica como a pessoa expressa suas emoções, relacionando-se com o ambiente. Principal emoção contida: NARCISISMO.

Sintomas e encouraçamento englobam: alteração do timbre da voz, sensação de "bolo" na garganta, tosse nervosa, dificuldade de chorar e gritar, distúrbios posturais, torcicolos, cefaléias de origem cervical, artrose cervical.Choros e gritos contidos, bem como "nãos" não ditos contribuem para o encouraçamento deste segmento.

4. TORÁCICO: Ligado à vitalidade da pessoa, ao importante processo da respiração e a órgão vitais de troca energética entre o meio interno e externo (caixa torácica e pulmões). Representa a forma em que a pessoa entra em contato com o meio externo e sociedade e sua capacidade de amar.

A respiração alterada por encouraçamento neste segmento pode ser expressa através da dificuldade para expirar (botar o ar para fora) e conseqüentes deformidades torácicas como o peito inflado, doenças respiratórias como asma. Nestes casos, o indivíduo se defende do contato com o meio externo e têm medo ou pânico de sair de sua segurança ilusória.

No caso da dificuldade de inspirar (botar o ar para dentro), o indivíduo por pena de si mesmo, tristeza ou insegurança, tem medo do contato com o meio externo, estando sujeito a distúrbios pulmonares como pneumonias e atelectasias.

Musculatura do ombro (trapézio, escaleno e ECOM) excessivamente tensa e contraída pode estar relacionada ao excesso de medo ou de pressões do cotidiano, associado geralmente a anteriorização da cabeça, pois se tem que se seguir em frente. Principal emoção contida: CHORO.

Uma pessoa com a parte anterior do tórax fechada e encurtada associada a um arqueamento exagerado das costas (hipercifose torácica ou corcunda) se relaciona, segundo Lowen, ao excesso de medo do contato e à raiva contida.

Através da respiração, exercícios visando alongar a musculatura encurtada e reequlibrar a alongada, propiciamos o desbloqueio desta couraça, abrindo seu coração e sua autoconfiança e a capacidade de amar.

5. DIAFRAGMÁTICO: Está diretamente relacionado à respiração e às emoções. Órgãos: diafragma, fígado, vesícula, estômago e duodeno.

6. ABDOMINAL: Órgãos: músculos abdominais, intestinos e rins.

Relaciona-se às emoções e sensações mais primitivas. Sintomas de encouraçamento incluem: musculatura abdominal flácida ou hipertônica, gerando quadros de dores lombares e/ou hiperlordose lombar (excesso da curvatura da coluna lombar), prisão de ventre ou diarréia, bloqueio da passagem de energia da pelve para o coração.

7. PÉLVICO: Tem a ver com a sexualidade humana e com a maneira em que se relaciona e transforma essa energia. A energia sobe pelos pés, pernas, chegando à pelve. A forma de contato dos pés e pernas com o chão indicam o grau de estabilidade, segurança e independência do indivíduo. Joelhos levemente dobrados (fletidos) e dedos em garra indicam pessoas muito terra e com dificuldades de abstrair, ousar ou criar. O contrário, ombros como se fossem ombreiras, altos, e dificuldade de colocar o calcanhar no chão refletiriam dificuldades de encarar o aqui e agora, de "aterrar".

A pelve constantemente contraída (em retroversão) estaria relacionada com a perda constante de energia sexual, implicando na falta de energia para realizações.

Já o famoso "bumbum empinado" (com a pelve em anteroversão) seria um indicativo de excesso de energia sexual não canalizada por frustrações, medo ou raiva.

"O ideal é sempre o equilíbrio".

Lowen, Alexander - Bioenergética (1975) - São Paulo, Ed. Summus, 6ª edição, 1982.

Movimento humano no contexto do desenvolvimento: estudos de Judith Kestenberg

Larissa Sato Turtelli; Maria da Consolação Gomes Cunha Fernandes Tavares

Universidade Estadual de Campinas

RESUMO

O objetivo desta pesquisa foi trazer para a discussão os estudos de Kestenberg abordando o movimento e o desenvolvimento humano. Estes estudos esmiúçam a complexidade destes fenômenos e explicitam como as aquisições de habilidades motoras e o desenvolvimento psicológico são interligados. A presente pesquisa foi baseada em publicações originais de Kestenberg. As fases do desenvolvimento são descritas por meio do uso do espaço e dos padrões de movimento característicos de cada fase, os quais são associados à construção da imagem corporal e ao desenvolvimento psíquico. São levantados dados relevantes para um aprofundamento psicológico na abordagem do movimento humano.

Palavras-chave: icomotricidade; movimento; imagem corporal; psicanálise.

O movimento humano é fonte valiosa de informações sobre a realidade psicológica de cada indivíduo. Os processos do desenvolvimento de cada pessoa estão expressos no modo como ela se move e experiencia seu corpo. No contexto terapêutico, a utilização da análise do movimento para a avaliação psicológica e tratamento apóia-se no entendimento da mente, emoções e corpo como sistemas integrados e que interagem mutuamente. Essa ligação significa que não apenas o corpo reflete a psique, mas o corpo também afeta a psique (Amighi, Loman, Lewis & Sossin, 1999).

As relações entre movimento humano e aspectos psicológicos têm sido foco de inúmeros estudos. As investigações acontecem nos dois sentidos: tanto pesquisadores do movimento levantam a importância de se considerar os aspectos psicológicos ao se trabalhar com o movimento humano, como pesquisadores da psique apontam a importância de se considerar o corpo e o movimento nos trabalhos terapêuticos.

Um dos pressupostos básicos nestes estudos é de que as primeiras experiências de vida da pessoa influenciam no modo como ela irá se relacionar com o seu corpo e se mover na fase adulta. Amighi e cols. (1999) colocam de forma clara:

Porque tanto as experiências físicas quanto as emocionais deixam marcas a longo-prazo no modo como as pessoas se seguram e se movem, o estudo do movimento abre uma porta para o estudo de padrões do desenvolvimento inicial, estratégias de relação com o meio e configurações da personalidade.

Segundo Schilder (1999):

A mudança das atitudes libidinais está, por sua vez, intimamente ligada às experiências de vida do indivíduo, e só pode ser entendida desta maneira. As atitudes em relação às situações vitais, a história de vida em seus aspectos subjetivos, levarão a uma ênfase diferente no modelo postural do corpo [...] isto mudará o próprio corpo. (p. 332).

Outros exemplos são encontrados em Cabral (2001) que considera que "[a] motilidade pode ser vista como o protótipo e expressão do funcionamento mental" (p. 291); Krueger (1990) que defende que a linguagem dos movimentos remete a experiências que antecedem a linguagem verbal e podem revelar afetos básicos; Pruzinsky (1990) que aponta que como experienciamos o corpo pode não apenas servir como pano de fundo para todas as nossas experiências, mas também influenciar a percepção e a memória; e Mahoney (1990) que destaca a importância de considerarmos, nos estudos a respeito da imagem corporal, os aspectos relacionados ao desenvolvimento, às relações interpessoais e ao "sistema do self".

Pruzinsky ressalta que todas as pessoas aprendem formas de enfrentar o mundo, essas estratégias são cognitivas, emocionais e corporais. Lutar, fugir ou paralisar são expressões e experiências corporais. Muito depois de a necessidade de um enfrentamento de determinada maneira ter passado, a pessoa continua a empregar os mesmos mecanismos de defesa para se defender. Estes mecanismos de defesa são empregados repetidamente, e internalizados de forma inconsciente. O autor aponta que avaliar e mudar estes mecanismos corporais é um dos focos das terapias conhecidas como "somatopsíquicas".

Ainda segundo Pruzinsky (1990), as terapias "somatopsíquicas" consideram que mudanças efetivas no funcionamento da pessoa precisam dar conta tanto do nível físico quanto do nível psicológico da existência humana. Para que a mudança psicoterapêutica seja clinicamente significante e seja duradoura, é preciso haver mudanças nas experiências corporais do indivíduo, pois assim como as pessoas têm padrões habituais de respostas cognitivas e emocionais, têm padrões habituais de experienciação corporal e tensões musculares.

Judith Kestenberg (1910-1999) aprofundou-se na investigação das relações entre o movimento humano e a psique. Havia uma preocupação da autora com a análise do movimento no contexto da psicanálise, ela acreditava ser necessária uma forma mais sistematizada de análise dos movimentos. Segundo a autora, havia uma tendência na psicanálise a traduzir os gestos e expressões faciais humanos para a estrutura de trabalho da comunicação verbal, o que não abarcava com propriedade o movimento, pois a linguagem verbal e a mobilidade eram meios diferentes de auto-expressão e não podiam ser substituídos um pelo outro. Nas décadas de 1960 e 1970, Kestenberg realizou um longo estudo no qual acompanhou três crianças e suas mães durante 20 anos, desde seu nascimento até o início da vida adulta. Neste estudo pôde pesquisar o desenvolvimento dos padrões de movimento das crianças e as relações destes padrões de movimento com os padrões de movimento das mães em cada fase do desenvolvimento.

Os estudos de Kestenberg são pouco conhecidos no Brasil. Trazer estes estudos para a discussão poderá enriquecer a forma como o movimento humano é abordado, pois são estudos minuciosos e inovadores que trazem dados preciosos a respeito da multiplicidade e sutilezas do mover humano e das relações entre o desenvolvimento psicológico e o desenvolvimento dos padrões motores.

A seguir, será abordada a visão de Kestenberg das fases do desenvolvimento a partir do enfoque dos padrões motores e suas inter-relações com a psique.

O presente estudo partiu dos livros: Children and Parents(Kestenberg, 1975), The Role of Movements Patterns in Development (Kestenberg & Sossin, 1979) e The Meaning of Movement (Amighi & cols., 1999).

Fases do Desenvolvimento

Kestenberg usa terminologia da psicanálise freudiana em seus estudos. Ela divide as fases do desenvolvimento em oral, anal, uretral, genital-interna, fálica, latência e adolescência, e chama os ritmos motores predominantes em cada uma destas fases de ritmos oral, anal, uretral e assim por diante. Embora a autora considerasse a terminologia da psicanálise como a mais acurada para classificar os padrões de movimento (ver Kestenberg & Sossin, 1979, pp. 46-47), atualmente estes termos parecem ter tido seu uso restringido aos seguidores da linha psicanalítica. No livro de Amighi e cols. (1999), que representa uma continuação dos estudos de Kestenberg, os movimentos são chamados por termos descritivos como sugar (ao invés de oral), pressionar (ao invés de anal), correr (ao invés de uretral) e assim por diante.

Kestenberg descreve as fases do desenvolvimento a partir dos padrões de movimento, do uso do espaço e de como a criança vai adquirindo novos controles de suas habilidades motoras; associa estas habilidades motoras a modos de pensar, apresentar, representar e sentir; fala como as qualidades de movimento estão ligadas à imagem corporal e também como a realidade psíquica da criança está interligada ao seu modo de se mover, lidar com os objetos e relacionar-se com as outras pessoas.

Fases pré-genitais, genital-interna e fálica

Em cada uma das fases pré-genitais e genitais Kestenberg distingue ritmos servindo às necessidades libidinais e sádicas sendo que os ritmos predominantemente libidinais precedem os ritmos predominantemente sádicos. Segundo a autora, tende a existir no desenvolvimento uma correspondência entre as pulsões e objetos específicos de cada fase. Kestenberg e Sossin (1979) explicam as pulsões referindo-se a Freud (1957). Os autores falam que, segundo Freud, as pulsões: são caracterizadas por sua origem em uma zona corporal, seu processo de descarga (que ele [Freud] chama impetus), seu objetivo e o objeto para o qual elas estão direcionadas. Pegando como um exemplo a pulsão oral, sua origem é a região do focinho; sua descarga típica procede através do uso do ritmo de fluxo de tensão 'oral' de sugar; seu objetivo é obter satisfação para necessidades de incorporar e seu objeto é o mamilo ou o dedo do nenê (Kestenberg & Sossin, 1979, p.49, tradução nossa).

Em cada uma das fases existe uma atitude corporal característica. Kestenberg considera a atitude do corpocomo o núcleo somático da imagem corporal. Os ritmos típicos e seqüências de padrões de movimento são o aspecto dinâmico da fase de desenvolvimento, já a atitude corporal representa a base mais constante sobre a qual a imagem morpho-estática do corpo é construída. A auto-representação é baseada no esquema de ambos os corpos,o móvel eo imóvel-posicionado.

Outros autores, como O' Shaughnessy (1998), Damásio (1996) e Campbell (1998), também se referem a este componentes mais dinâmicos e mais estáticos que fariam parte da construção da imagem corporal.

Para Kestenberg, as atitudes do corpo referem-se à forma que o corpo está tomando, a como ele está alinhado no espaço, a como as partes do corpo estão posicionadas uma em relação à outra e às posições favoritas do corpo todo. Também denotam todos os padrões e frases de movimento para os quais existe uma prontidão do corpo no repouso e ainda indicam as qualidades de movimento as quais, por seu uso freqüente, deixaram suamarca no corpo.

A seguir descrevemos as fases pré-genitais (neonatal, oral, anal e uretral) e genitais (genital-interna e fálica) na perspectiva de Kestenberg.

Fases pré-genitais: neonatal, oral, anal e uretral

Fase neonatal

A forma do corpo do recém-nascido reflete o seu confinamento recente na cavidade uterina. Os movimentos da parte superior e da parte inferior do seu corpo ainda não são coordenados, ele deve integrar as partes do corpo, as posições e os movimentos em padrões que serão responsivos às oportunidades providas pelo ambiente para a nutrição e o crescimento.

A mãe ajuda o nenê a usar seu equipamento inato em consonância com o seu, e assim provê modelos a ele para que ele possa coordenar o fluxo de tensão eo fluxo de forma. Quando há consonância entre mãe e filho, se o filho cresce em direção à mãe, ela cresce em direção a ele, se ele se recolhe um pouco, ela se recolhe um pouco. Desta forma, quando a mãe percebe que o nenê busca o mamilo para mamar, ela vai em direção a ele para que ele encontre o mamilo, quando o nenê solta o mamilo para engolir, a mãe também se recolhe um pouco. Não há consonância se no momento em que o nenê solta o mamilo a mãe o empurra de volta na boca dele. Por outro lado, a mãe não deve apenas se sintonizar com o filho, mas também ensiná-lo a sintonizar-se com ela.

Embora a sintonia com a mãe seja de extrema importância para o desenvolvimento da criança, Kestenberg ressalta que alguns momentos de choque entre mãe e filho também são necessários, pois uma sintonia extrema e persistente entre os dois pode vir a dificultar o processo de diferenciação.

Progressivamente o nenê atinge o controle para ficar sugando continuamente. Assim ele desenvolve uma regulação entre fluxo de tensão preso e livre que pode ser usada para a contenção ou liberação da descarga dos impulsos por meio dos canais motores. Desta regulação evoluem os sentimentos de cautela e segurança, especialmente aqueles que são experienciados na perda de equilíbrio e recuperação através de um colo seguro.

Da progressãona regulaçãodo fluxode forma, adescargados impulsos é distribuída para dentro ou para fora do corpo e para partesdiferentesdo corpo. Desta regulação evoluem sentimentos de desconforto ou conforto e de repulsão ou de atração.

Com a ajuda integrativa da mãe, o nenê vai aprendendo a integrar os fluxos de tensão com os fluxos de forma. Assim, o sentimento de segurança funde-se com o sentimento de conforto e de atração, enquanto o sentimento de cautela funde-se com o de desconforto e repulsa.

Fase oral

O estabelecimento de um sistema primário de comunicação é a tarefa de desenvolvimento da fase oral. Isto só é possível à medida que a criança adquire a noção de constância de si mesmo e dos objetos no espaço.

Dolto (1994/1999) também aponta esta fase como o momento no qual a mente da criança começa a despertar para a comunicação. Segundo Dolto (1984/2004, p. 79) "o desmame implica que a mãe seja capaz de se comunicar com o filho de outra forma que não lhe dando alimento, lidando com seus excrementos e devorando-lhe com beijos e carícias".

Para Erikson (1963/1976) "obter" é a primeira modalidade social que se aprende na vida, obter significa receber e aceitar o que é dado. As etapas da fase oral criam na criança as fontes do sentimento básico de confiança e de desconfiança. Na fase oral, a criança tem controle do plano horizontal. Ela dá formas ao seu corpo encolhendo-se e expandindo-se. Esta é a base corporal em cima da qual ela constrói as habilidades de se mover lateralmente e transversalmente. Os ritmos orais de sugar promovem a união com o objeto, os ritmos oraissádicos de morder levam a uma separação. Quando predominam os ritmos de sugar no início da fase oral há uma maior sintonia entre o nenê e a mãe, já quando a criança começa a morder sua mãe, ela geralmente rompe esta unidade dual que foi estabelecida desde o início da fase oral.

Ganhando controle do ritmo oral de "fluxo de tensão" e mudanças correspondentes no "fluxo da forma", a criança torna-se parcialmente independente da sua mãe e pode edificar a primeira versão da sua imagem corporal. No início da fase oral, a imagem corporal do nenê é incerta. Nos momentos em que está mamando, ele se funde com sua mãe, e sua imagem corporal abarca toda a dupla. Já quando está sozinho e não precisa mais da mãe, sua imagem corporal se encolhe ficando próxima do tamanho do seu corpo. Isto acontece na medida em que o nenê ainda não tem bem definidos para si mesmo os seus limites corporais. Assim, sua imagem corporal pode expandir-se abarcando outros objetos, bem como se retrair quando não está em contato com outros objetos.

Da inter-relação entre crescer e encolher, alcançar e recolher, espalhar e reunir desenvolve-se entre a mãe e a criança um sistema de "preensão e soltura". Quando ao invés de "crescer" em direção à mãe a criança passa a "alcançar" a mãe e ao invés de "encolher-se" para atingir a união entre a boca e a mão, a criança passa a "colocar" as coisas para dentro da boca, a criança torna-se funcionalmente "preênsil". A partir desta nova organização torna-se possível para ela o "explorar", o "abranger" e o "comunicar".

Klein (1952/1973, pp. 36-37) afirma que "não apenas a boca [do nenê], mas até certo grau todo o corpo, com todos os seus sentidos e funções, realiza este processo de 'pôr para dentro'" durante a fase oral.

Por meio do movimento, da exploração do "plano horizontal", a criança vai adquirindo os conceitos de "aqui" e "lá" e "aqui não" e "lá não". Reconhecendo o espaço de fora como um meio que a separa dos objetos, a criança define sua localização no espaço "perto" e a localização dos objetos no espaço "ao alcance".

No final da fase oral, o ritmo de mordida torna-se mais freqüente. O ritmo de mordida auxilia na distinção da criança entre ela e os objetos externos. A diferenciação progressiva de posições básicas do corpo e dos movimentos dos membros torna-se o núcleo central da imagem corporal preênsil do nenê. A mobilidade da cabeça e dos membros e a mobilização progressiva do peito por meio das torções e das viradas facilitam a abordagem do espaço e sua exploração.

Atenção e exploração combinam-se para promover o desenvolvimento das representações de si mesmo e dos objetos e da constância de si mesmo e dos objetos no espaço, por meio do reconhecimento da igualdade no perto e no longe. Esta aquisição também é mencionada por outros pesquisadores (Dolto, 1994/1999; Klein, 1991) e seu desenvolvimento está ligado às brincadeiras de trazer para perto e mandar para longe os objetos.

Klein (1975/1991) não concorda que os impulsos destrutivos (sádicos-orais) aparecem pela primeira vez com o início da dentição, para ela, eles já estão presentes desde o início da fase oral. "Tanto a capacidade de amar quanto o sentimento de perseguição têm raízes profundas nos processos mentais mais arcaicos do bebê"(p. 283).

Fase anal

Na transição para a fase anal, a criança começa a erguer-se para a posição ereta. Seu interesse muda da parte de cima do corpo, preênsil, para a parte de baixo, estabilizante. Ela descobre suas pernas e tronco e os transforma de ferramentas preênseis para ferramentas de suporte. Quando ela engatinha, até suas mãos se tornam estabilizadoras ao invés de pegadoras.

A criança explora a verticalidade e aprende a controlar os níveis de tensão do corpo. Explora as qualidades dos objetos (pesos, texturas) e começa a lhes atribuir valores. Passa a ter intencionalidade, exprimindo o que ela quer e o que não quer.

Dolto (1971/1980, p. 56) afirma que no início da fase anal a criança começa a ter prazer de "beliscar, agredir, esmagar; 'empurrar', isto é, de fazer esforço". Relaciona isto ao fato da criança estar fisicamente capacitada para realizar um esforço muscular e estar aprendendo a disciplinar este esforço.

Segundo Kestenberg, quando se inicia a fase anal-sádica os ritmos são de segurar e expelir, a criança segura objetos e depois os joga. Ela aprende a coordenar alta tensão com encolhimento do corpo e baixa tensão com alongamento do corpo. Ganhando controle de grupos semelhantes de padrões de movimento no corpo e no rosto, a criança é capaz de exibir emoções. A predominância dos ritmos de segurar e expelir caracteriza todo o comportamento da criança. Ela precisa de muito tempo por si mesma para ganhar controle sobre os ritmos anais e conseguir o sentimento de si mesma como uma unidade independente.

Para Erikson (1963/1976), soltar e agarrar são as novas modalidades sociais desenvolvidas neste momento. A criança começa a desenvolver um sentimento de autonomia, o "desenvolvimento do sistema muscular dá à criança um poder muito maior sobre o meio ambiente" (p. 73). Para Casale (1986), a criança na fase anal tem motivações de conhecimento, presença e propriedade.

Segundo Kestenberg, a criança nesta fase fica na posição ereta mantendo seu corpo em um bloco só. Alinhada no plano vertical, ela se torna parte do mundo adulto. Por meio da manutenção das posições sentada, de cócoras e de pé, ela adquire um núcleo para uma imagem corporal diferenciada e rígida.

Ganhando o controle de vários graus de tensão muscular e de dimensões e direções no plano vertical, a criança experimenta transferir o seu próprio peso assim como o peso dos objetos. Por meio de movimentos como empurrar, levantar e jogar, ela começa a avaliar os pesos. Experimentando tocar suavemente e com pressão, ela avalia as texturas. Alongando e diminuindo, ela avalia os tamanhos. Assim, os objetos começam a ter qualidades duradouras. Dolto (1994/1999) chama esta etapa de "idade do mexe-em-tudo", quando a criança aprende a conhecer as coisas.

Na visão de Kestenberg saber o que são as partes de seu corpo e o que são os objetos dá à criança um sentimento de intencionalidade. Ela sabe o que ela quer e ela confronta sua mãe com uma evidência clara da sua intenção. Uma vez que a criança pode criar símbolos permanentes, ela constrói uma imagem de sua mãe como um objeto sólido indestrutível e assume as mesmas qualidades para si mesma.

Quando a criança torna-se capaz de internalizar as qualidades de peso e volume dos objetos, seu ego começa a regular a catexia dos objetos de acordo com seus valores duradouros. Ela compara pesos e tamanhos e começa a colocar julgamentos a estes aspectos dos objetos.

Fase uretral

A tarefa da fase uretral é o desenvolvimento da capacidade de executar operações. No terceiro ano de vida, a criança começa a ficar consciente do tempo, a ganhar iniciativas e tomar decisões, assim como a antecipar as reações das pessoas ao seu comportamento.

Casale (1986) afirma que quando a criança, nesta fase, começa a ter a capacidade representativa do objeto ela passa a poder antecipar a ação. Suas necessidades nesta fase vinculam-se ao surgimento de suas motivações.

Segundo Kestenberg, nesta fase a criança irá explorar o plano sagital, ela gosta de correr a frente de sua mãe e é incapaz de parar o fluxo livre de seus impulsos locomotores. Ela se entrega a uma mobilidade interior e se perde nela. Ela só será capaz de prender o fluxo de seu movimento e controlá-lo quando a fase uretral-sádica ficar dominante.

A imagem corporal tensa e morpho-estática da criança da fase anal começa a ser substituída por uma nova imagem corporal tensa e morpho-móbil. A criança passa a experienciar sua mãe também como um móbil. As fronteiras do corpo ficam incertas quando a criança estável torna-se uma criança móbil e mobilizadora. O fluxo de tensão é de tipo fluido e de escoamento. A imagem corporal da criança pode crescer além dos limites quando ela se projeta dentro do espaço. Ela precisa da mãe para contê-la, para ajudá-la a restabelecer as fronteiras do corpo segurando-a e acariciando-a.

Os ritmos uretrais-sádicos são caracterizados por passagens bruscas do fluxo livre para o preso. A criança pratica começar e parar abruptamente o movimento, enquanto ela ganha controle da dimensão para frente e para trás. Um sistema de operação de mobilização-contenção incorpora os sistemas anteriores de preensão-soltura eestabilização-soltura.

A criança puxa, deixa coisas para trás, anima objetos imóveis e os faz correr e parar de acordo com sua vontade. Esta sua qualidade móbil inicia uma nova organização do ego. A regulação do tempo torna-se uma função do ego, e a antecipação de seqüências começa a trazer uma ordem de processo secundário para as ações, palavras e pensamentos. A criança começa a ficar consciente do tempo, ela passa a tomar decisões sozinha e ser capaz de ir mais devagar ou apressar-se. Assim, desenvolve um novo tipo de constância dos objetos, a constância no tempo.

Ao fim das fases pré-genitais a criança pode comunicarse, apresentar sua intenção, e operar (contar uma história curta ou jogar um jogo curto). Todas estas realizações são dependentes da sua habilidade de manter a constância dos objetos no espaço, peso e tempo.

Fase genital interna

Em cada uma das fases anteriores, a criança aprendeu alguns padrões motores e praticou-os incessantemente. Na fase genital-interna, sua tarefa será a de combinar o que aprendeu e praticar estes padrões em frases comportamentais complexas.

Nesta fase, a criança lida com excitações das suas partes sexuais. Por meio de balançar, rolar, oscilar e de transferências de peso quase imperceptíveis, a criança desenvolve uma integração entre todas as partes do corpo que provê o núcleo para uma imagem corporal integrada. Sua atitude corporal reflete a sutil integração entre o dentro e o fora do corpo que começa a ser desenvolvida em sua imagem corporal.

A criança, nesta fase, fica confusa com a falta de clareza de suas sensações cinestésicas e no início, aponta sua origem para o estômago, o reto ou a bexiga. Este tráfico entre o dentro e o fora facilita a exteriorização das percepções cinestésicas e dos impulsos cinestésicos de dentro do corpo para a sua periferia e para os objetos. Usar o movimento para modelar o espaço ajuda a criança a construir modelos para o interior não visível do corpo.

As combinações de padrões de movimento mais freqüentes são aquelas que se assemelham aos movimentos maternos. Como a mãe, a criança passa a usar mais intensamente a verbalização para se manifestar.

É freqüente, nesta fase, a criança ter objetos que ela trata como se ela fosse a mãe cuidando do nenê. No fim da fase genital-interna estes objetos-nenês que antes eram segurados perto do peito são freqüentemente segurados perto das coxas ou entre as pernas e tratados rudemente. Ataques deliberados aos objetos são ocasionados por sentimentos de que dentro está intolerável e deve ser eliminado. Os medos aumentam e evocam na criança atitudes características de fases anteriores.

Quanto melhor a integração da criança com a realidade e a sua aquisição da noção de constância dos objetos, maior a possibilidade de elaboração de seus medos por meio de processos mais complexos como a sublimação7.

Fase fálica

No início desta fase, a criança tende a usar seu corpo todo como uma unidade, com a cabeça e os membros agindo como extensões do tronco. O centro de gravidade é estável e as fronteiras do corpo são claramente delineadas pelos aumentos de tensão.

Crianças dos dois sexos gostam de pular para cima e para baixo como um passatempo. No final desta fase, quando fantasias de penetração com intenção agressiva começam a predominar, os pulos sem objetivo são substituídos por saltos em extensão e aterrissagens seguras. A criança varia entre querer machucar os outros e ser machucada, amar e ser amada. Seu efeito na atitude corporal é uma diferenciação acentuada entre cabeça, membros e tronco, cada um funcionalmente diferente e servindo a objetivos específicos.

No começo da fase, a criança está orientada para a ação. No fim da fase, ela se tornou capaz de planejar suas ações de acordo com os interesses de seu ego e em consideração com os outros. Quando a criança, no fim da fase fálica, aprende a discriminar claramente entre os opostos, ela se torna um expert em se preparar para as ações por meio do uso seqüencial de padrões contrastantes, por exemplo, flexionar os joelhos e encolher-se antes de estender-se em um grande salto para frente.

Na fase fálica, Erikson (1963/1976) vê as atitudes dos meninos caracterizadas pelo "modo intrusivo" e das meninas pela "incepção" e "inclusão", embora também ocorra com elas a "intrusão". Ainda segundo este autor, as crianças desenvolvem nesta fase os sentimentos de iniciativa.

Fases de latência e adolescência

A criança da fase de latência dá a impressão de estabilidade e segurança. Sua tarefa de desenvolvimento está relacionada à aquisição de um sentido social e a incorporação parcial deste sentido pelo superego como uma consciência social. No movimento da criança existe uma distribuição uniforme de todos os ritmos em suas formas puras e em variedades misturadas. Os gestos reforçam a fala e provém uma "melodia" por eles mesmos de acordo com as qualidades dos elementos de esforço e forma. A criança começa a ser mais reticente e requerer mais privacidade para si mesma. Freqüentemente ela apresenta predominância de atitudes próprias das fases anteriores, principalmente quando em companhia de outras crianças.

Para Dolto (1971/1980, p. 49), nesta fase a "libido [...] estará inteiramente ao serviço de um Superego objetivo. O inconsciente também participará da aquisição cultural, à conquista do mundo exterior". Erikson (1963/1976) relaciona esta fase com o aprendizado da realização de tarefas. Segundo Casale (1986), nesta fase da vida inicia-se o desenvolvimento da escala de valores, a criança já conta com sentimentos, conhecimentos e está forjando valores éticos.

Segundo Kestenberg, a atitude corporal da latência é caracterizada por um tronco rígido, que aparenta mover-se em um bloco só. O tronco raramente se torce na cintura e é isolado da mobilidade dos pulsos, articulações dos dedos e tornozelos pela inibição do movimento nas articulações proximais. Apesar da relativa isolação entre cabeça e membros, a cooperação entre eles se torna operativa não apenas nas posturas, mas também quando a criança planeja mover-se em gestos úteis e bem coordenados.

Muitos dos padrões de movimento usados pela criança são modelados sob influência das várias pessoas com as quais ela se identificou no passado e se identifica no presente. Casar bem os elementos de esforço e formareflete a síntese entre identificações com ações (por meio do esforço) e identificações com atitudes para com objetos (por meio das formas). As combinações mais harmoniosas acontecem quando as tendências pessoais da criança coincidem com aquelas das pessoas com as quais a criança se identifica.

Na fase da latência existe um isolamento entre as posturas e os gestos. Este isolamento desaparece na adolescência. A reorganização da imagem corporal na adolescência requer um tipo fluido de comunicação entre todas as estruturas que participam em sua reconstrução. Em contraste, as crianças na latência persistem em manter sua velha imagem corporal, mesmo quando as mudanças anatômicas já pedem por sua reestruturação.

Fase da adolescência

Segundo Erikson (1976, p. 240) "na puberdade e na adolescência todas as uniformidades e continuidades em que se confiava anteriormente voltam a ser até certo ponto discutíveis, por causa de uma rapidez do crescimento do corpo [...] e da nova adição de maturidade genital". Predominam os sentimentos de "identidade" versus"confusão de papel". Casale (1986) afirma que na puberdade, embora a criança conheça seus sentimentos, conhecimentos e valores, ela ainda não aprendeu a agir integrando-os.

Para Kestenberg, a tarefa de desenvolvimento da adolescência é a cristalização de um espírito de comunidade. Esta fase é dividida pela autora em quatro subfases: a) Prépuberdade; b) Crescimento da puberdade; c) Diferenciação da puberdade; e d) Consolidação pré-adulta.

Pré-puberdade

Na pré-puberdade, a cintura da criança torna-se flexível e móbil. O tronco não se move mais como um bloco só. Há um crescimento não uniforme entre as partes do corpo, assim acontece um desequilíbrio entre elas. As combinações harmoniosas de padrões, que havia na fase da latência, são substituídas por combinações que se chocam. Para promover a estabilidade, existe uma inibição do fluxo da ação quando é perdido o controle dos movimentos dos membros. A renovação dos ritmos não-treinados e a variação entre descarrilamento dos movimentos e rigidez exigem uma nova integração entre membros e centro do corpo que servirá como base para uma nova imagem corporal abarcando as diferenças sexuais.

Na adolescência há uma disputa de vários ritmos pela dominância. O adolescente se vê agindo de uma maneira que entra em choque não apenas com o que os adultos e seus colegas esperam dele, mas também com o que ele mesmo espera dele. Por meio de repetidos choques e restituições da harmonia, o jovem reorganiza e re-estrutura seus agentes psíquicos.

No esporte, ele consegue coordenar fluxo de tensão, esforço, fluxo de forma e modelagens no espaço, mas depois de acabada a atividade, ele tende a voltar à combinação desordenada destes fatores. Ao mesmo tempo em que o crescimento hormonal, físico e mental torna-se mais regular, o jovem adolescente ganha controle na distribuição de breves e prolongados períodos de realizações e descanso.

Crescimento da puberdade

As atitudes corporais são baseadas em uma ênfase exageradamente narcisista das diferenças sexuais. Nesta fase existe um crescimento do ritmo pulsátil para os meninos e cíclico para as meninas. Os jovens sentem necessidade de encontrar outros ritmos similares aos seus. As amizades e casais são iniciados pela experiência da sincronização e harmonização dos ritmos durante a qual as fronteiras dos corpos se fundem e a imagem corporal se expande.

A formação de um autoconceito (identidade) dinâmico e indiviso pede pela re-sintetização das identificações do passado e do presente, as quais incluem não só objetos familiares, mas também colegas e outros adultos. Este desenvolvimento pode ser reconhecido no movimento na evolução de esforços complexos e padrões demodelagens a partir da combinação de vários esforços simples e formas elementares.

Diferenciação da puberdade

A atitude corporal torna-se individualizada e parecida com a dos adultos. As fronteiras do corpo estão bem delimitadas, com diferentes partes do corpo variando na clareza de sua delimitação, refletindo uma imagem corporal diferenciada e específica de cada sexo.

Um sinal distintivo da individualidade no adolescente deriva da repetição preferencial de certos padrões de movimento em um tipo de ritmicidade bem definida. Esta ritmicidade pode ser dividida em três partes que dão uma organização geral às seqüências de padrões de movimento: preparação para uma atividade; execução da atividade; e resolução da atividade.

O estilo pessoal mais claramente definido permite à família e aos amigos reagirem com respostas diferentes ao adolescente. Ele está ficando sensível às mudanças e começando também a reagir para pessoas diferentes de diferentes maneiras. As estruturas psíquicas estão ficando diferenciadas, sem a isolação rígida que era característica da latência. A transferência do envolvimento com a família, para novos laços, só é possível quando a maturação física, neuro-hormonal e dos padrões motores suporta a diferenciação progressiva que permite ao adolescente achar seu lugar na comunidade.

Antes da fase pré-adulta, o adolescente passa por uma fase de regressão, com desorganização na atitude corporal e na ritmicidade do movimento. Na atitude corporal do adolescente, nesta fase são observadas perda da vitalidade, diminuição do delineamento claro da forma e das fronteiras do corpo e perda da diferenciação das funções da cabeça, tronco e membros. Esta regressão motora indica que as pulsões estão mais fortes e as funções do ego e do superego estão proporcionalmente mais tênues.

Consolidação pré-adulta

Nesta fase torna-se solidamente estabelecida uma atitude corporal adulta. Ela contém traços de atitudes corporais anteriores, isto é, porções que foram preservadas sem mudança.

As fronteiras do corpo são restauradas e feitas mais sólidas do que antes, os padrões habituais de fluxos de tensão e forma tornam-se permanentemente gravados na atitude corporal. A prontidão para mover-se em certosesforços e posicionar o corpo em vetores definidos do espaço é tão constante que pode ser considerada um núcleo somático estável da auto-representação e da identidade do adulto.

A ritmicidade do movimento pára de dominar o comportamento e é evocada, modificada e consolidada primariamente a serviço da adaptação à realidade externa e do relacionamento interpessoal. Existe uma grande estabilidade na organização das pulsões e menos variedade nos sentimentos a respeito de si mesmo.

O retorno de uma supremacia do ego em cima do id é reforçado por uma grande complexidade e solidez dos mecanismos de defesa e do relacionamento com a realidade externa. As frases em gestos e posturas individualizadas e freqüentemente repetidas refletem os conflitos típicos e soluções típicas de um determinado indivíduo.

Considerações Finais

Os estudos de Kestenberg são preciosos por conseguirem captar o movimento nas suas sutilezas e ao mesmo tempo na sua complexidade. Na perspectiva desta autora, a mobilidade desenvolve-se junto com o desenvolvimento psicológico, não paralelamente, e sim, um intrinsecamente ligado ao outro. É possível ver correspondências entre as observações de Kestenberg sobre as fases do desenvolvimento e a de outros autores, principalmente do viés psicanalítico, porém o que a diferencia é o seu foco no estudo pormenorizado do desenvolvimento dos ritmos motores e das inter-relações destes com o desenvolvimento psicológico.

Nos estudos de Kestenberg, fica claro ainda como os padrões de movimento do ser humano na vida adulta são individualizados e dependentes de aspectos do início da história de vida da pessoa, assim como das preferências congênitas da pessoa por certas qualidades de movimento.

Pruzinsky (1990) aponta a importância do toque e do movimento para o processo de individuação da criança. Considera a experiência tátil e as informações cinestésicas e proprioceptivas como mediadoras para a formação do sentido de self e para o estabelecimento das fronteiras entre o self e o mundo.

Kinsbourne (1998) considera que a habilidade para atentar para as próprias representações das partes do próprio corpo pode ser um precursor essencial para a aquisição do conceito de self. O corpo traz uma sensação defamiliaridade, de algo constante que existe independentemente do que a pessoa estiver pensando, fazendo, sentindo, e mesmo que ela não esteja com a atenção voltada para o corpo.

Todos os ritmos podem ser notados no bebê recém-nascido e as preferências por determinados ritmos podem ser detectadas desde cedo. Os fluxos de tensão originalmente preferidos aumentam ou diminuem de acordo com a sintonia com a mãe e mudam de influência no comportamento de acordo com a maturação. Quando as preferências originais do bebê são tão fortes que impedem o influxo dos ritmos específicos de cada fase, o desenvolvimento é desfigurado por fixações precoces.

Os modos predominantes de organização do movimento durante a primeira infância são carregados para a vida adulta. As preferências de ritmos motores originais são geralmente preservadas em forma de ritmos mistos. Da distribuição dos ritmos mistos é possível julgar se existe uma fixação em determinada pulsão. É possível acessar a fase do desenvolvimento na qual ocorreu a fixação pela análise do movimento da pessoa.

Kestenberg enfatiza que ela não supõe uma relação simples entre mobilidade e psique. Ela tenta fazer inferências sobre a psique a partir dos padrões de movimento, assim como ela faz inferências sobre a psique a partir das produções verbais.

O movimento tem papel primordial no modo como nos representamos para nós mesmos e nos apresentamos para os outros. Isto está relacionado às nossas sensações de potência e impotência e aos nossos limites. Qualquer intervenção sobre o movimento corporal de uma pessoa, faz-se sobre este fenômeno complexo. A abordagem de Kestenberg torna bem evidente este aspecto, sendo um conhecimento necessário para quem trabalha com o corpo do outro. Seus estudos abrem possibilidades tanto para pesquisas práticas quanto para desenvolvimentos teóricos no assunto.

3 As abordagens somatopsíquicas usam intervenções corporais para afetar o funcionamento psicológico, elas incluem o movimento do corpo, a manipulação da pele ou dos músculos e técnicas focalizadas no corpo integradas com psicoterapia verbal. São exemplos: terapias por meio da dança e do movimento, técnica de Alexander, método de Feldenkrais, Rolfing, terapia de Reich, dentre outros (Pruzinsky, 1990).

4 Kestenberg analisa os movimentos de acordo com seus atributos de esforço (fluxos de tensão, precursores de esforço e esforço); e "atributos de forma" (fluxos de formas, modelagens do espaço em direções e modelagens do espaço em planos). O fluxo de tensão é usado pela pessoa para expressar necessidades, impulsos e sentimentos, está relacionado às pulsões. O fluxo de forma é usado para a entrada ou expulsão de substâncias do corpo, está ligado aos modos de relação com o ambiente e consigo mesma. Os ritmos de fluxos de tensão e deforma são considerados por Kestenberg relacionados ao controle do id. Com a maturação, estes ritmos se tornam subordinados aos "esforços" e "modelagens no espaço" que são fatores motores que vêm sob o controle do ego.

5 Kestenberg utiliza os conceitos freudianos ego, id e superego. Estas são as três principais subdivisões funcionais do aparelho mental propostas por Freud. O ego está ligado à racionalidade e às defesas, possui uma parte consciente e uma inconsciente, serve como um intermediário entre o indivíduo e a realidade externa, está numa relação de dependência quanto às reivindicações do id, bem como aos imperativos do superego e às exigências da realidade externa. O id constitui o polo pulsional da personalidade, os seus conteúdos, expressão psíquica das pulsões, são inconscientes, em parte inatos e em parte recalcados e adquiridos. O superego constitui-se por interiorização das exigências e das interdições parentais. Tem um papel de censor relativamente ao ego, são suas funções a consciência moral, a auto-preservação e a formação de ideais (Laplanche & Pontalis, 1967/1986; Moore & Fine, 1990/1992; Rycroft, 1968/1975).

6 Termo freudiano que se refere à "quantidade de energia [psíquica] que se liga a qualquer representação de objeto ou a qualquer estrutura mental". (Rycroft, 1968/1975, p. 53).

7 Segundo Laplanche e Pontalis (1967/1986) sublimação é o "[p]rocesso postulado por Freud para explicar actividades humanas sem qualquer relação aparente com a sexualidade, mas que encontrariam o seu elemento propulsor na força da pulsão sexual. Freud descreveu como actividades de sublimação principalmente a actividade artística e a investigação intelectual. Diz-se que a pulsão é sublimada na medida em que é derivada para um novo alvo não sexual ou em que visa objectos socialmente valorizados" (p. 638).

Recebido em 16.02.2006
Primeira decisão editorial em 25.09.2006